Com os braços apoiados no balcão, via as pessoas entrando e saindo. Algumas eram indecisas, outras sabiam exatamente o que queriam. O vendedor era simpático, mas parte daquela simpatia era forjada, já que ninguém é de ferro.
Uma mulher com calças de alfaiataria entra na loja e pede um livro de culinária. Ela era uma bela moça, devia ter uns 30 e poucos anos, era conservada. Parecia ser uma advogada, mas o que uma advogada faria com um livro de culinária?, talvez ela estivesse preparando um jantar romântico pro seu namorado, talvez uma noite temática, ou só um livro de culinária para seu mero prazer. Observo distraída, meus olhos doíam. Tinha ido dormir tarde aquela noite.
Algumas crianças corriam em volta das bancadas de livros, suas mães deviam estar conversando no café e lendo revistas de moda. Só espero que elas não cresçam descontroladas. Uma mulher que andava entre as estantes deixou uma nota de 50 reais cair no chão sem ver e continuou andando, uma menina pegou e correu para entregá-la. É bom saber que ainda existem pessoas que fazem o bem.
Batuco os dedos no balcão, meus cotovelos já estavam doídos, para fazer o tempo passar mais rápido. Um cara bonitão me olha do outro lado da livraria. Não pode ser pra mim, penso. Estava um trapo. Olho em volta e vejo que os olhares não eram pra mim e sim pra bonitona do Café. Reviro os olhos com desprezo e paro para pensar no quão inútil sou, depois me lembro de que sou a proprietária. Não que isso seja motivo pra eu ficar sustentando meu ócio, mas hoje realmente não era meu dia.
Coloco Los Hermanos para tocar e fico curtindo a música comendo os muffins que havia comprado no caminho. Dá a hora de fechar, dispenso os funcionários e agradeço a cada um pelo trabalho que tinham feito hoje. Fiquei depois do expediente. A loja era minha, toda minha. Desliguei o sistema de câmeras, apaguei as luzes, arrumei minha mesa e quando estava indo pegar uma bebida no Café, ouço um barulho na porta, quando abro, vejo que era ele. Vicente. Toda quinta ele ia pra livraria depois do expediente ficar comigo. Ele era um cara bacana, estávamos juntos desde a primavera de 2006. Ele trajava uma blusa de pano fino, calças skinny e um All Star surrado, como sempre com o cabelo bagunçado e um sorriso no rosto. Ficamos sentados nas poltronas do Café tomando refrigerante de limão e jogando conversa fora.
Não havíamos percebido, mas já eram 00:37 quando paramos de falar e rir. Fechamos a loja e fomos caminhando pra casa. Chegamos ao meu apartamento e ficamos por lá, eu pedi para ele ficar, ele aceitou, já que era tarde e ele levaria no mínimo 40 minutos para chegar em casa. Arrumei uma cama na sala para ele, ficamos vendo TV até tarde da noite, acabei dormindo por lá mesmo. Meu dia foi melhor do que o esperado. Melhor dizendo: Minha noite.
"The lonely loner seems to free his mind at night, ah ah at night"
Que fofo, adoro noites de aconchego com o namorado, rs. Sério, muito fofo.
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